16 de julho de 2010
O gatão é meu cachorro
14 de julho de 2010
Um dia meu homem
27 de junho de 2010
Cheiro das manhãs
21 de junho de 2010
15 de junho de 2010
Vida à la carte

12 de junho de 2010
O negócio é amar
9 de junho de 2010
Sutil conquista
Está na natureza: o macho é o caçador ! Mas numa natureza moderna, com homens se depilando e mulheres consertando chuveiro e matando barata a ordem se mistura, caça e caçador se confundem e a regra...bem, não existe mais regra.
Tenho três amigas que estão no momento “como vou cantar o cara?” Eu não sou a miss conquistadora, mas é fato: apesar da mulher vestir a fantasia de presa, ela não é presa nunca. É predadora. Um homem pensa que é caçador, a mulher faz de conta e deixa ele acreditar que sim. No fundo são as moças que escolhem, mas não chegam no título de caçadoras, são conquistadoras.
Mulheres são sutis, não saem caçando a carne. Saem conquistando corpos e idéias. Algumas fazem isso sem nem perceber, outras precisam pegar no tranco e algumas ainda têm a dificuldade de acreditar que a mulher pode cantar o bonitinho da esquina.
Demonstrar-se interessada, não te faz menos interessante. Tudo é uma questão de postura, de olhar, de conversa e até de sorrisos. A linha entre caçadora e conquistadora está como ser sensual e vulgar. A diferença é grande, mas tem gente que confunde.
Quando se conquista, você é sensual. Diz, mas não revela. Mostra, mas não se mostra. Fala, e deixa a dúvida. Não precisa vulgarizar querendo mostrar peito, bunda e risadas escandalosas para parecer engraçada. É claro que tudo é uma questão de estilo e objetivo.
Não é anormal a mulher sair à frente, dar o primeiro passo é permitir que o outro alguém dê os demais. Todo mundo gosta de conquistar e ser conquistado. Nada com pressa e às claras. Devagar, segurando a ansiedade e chegando na ponta dos pés a presa.
O jogo da conquista é, em muitas vezes, a melhor parte. A curiosidade e a expectativa são o que nos move pra frente e o que tem movimentado as conversas com minhas amigas. Entre elas está Gabrielle, do Engabizando. Uma conquistadora iniciante que diz que eu devia escrever um manual de conquista. Se eu fizer isso não fico com homem nenhum mais, acho. Eles vão fugir de mim, ou ficarem muito meus amigos.
E tudo é só experiência na observação humana. Mas eu como minhas amigas passei pela mesma dúvida de como chegar no rapaz e bem, quanto a mim, tudo o que eu fiz foi dizer antes dele:
- Oi, meu nome é Camila.
E a história começa aí...
26 de maio de 2010
Estréia
“Todo jornalista é o artista frustrado”
Nunca me esqueci da frase dita por uma professora no colegial ao saber da minha definitiva escolha pelo ofício.
Não sei bem dizer se é frustração, ou quando se confundiu com pretensão. Isso porque, sempre achei a arte e o palco pretensioso demais pra mim.
Eu sabia qual era o meu limite, pelo menos achava que sabia até semana passada, na minha estréia.
Escrever é (ou era) o suficiente para não me fazer uma pessoa frustrada. Mas aí, na falta do que fazer depois de graduada, fui estudar teatro pra ajudar na desenvoltura e dramaturgia para dar continuidade a qualquer imaginação. O fato é que de cara o curso de teatro possibilitou que eu colocasse a mão na massa, sendo co-autora do espetáculo que apresentamos.
No camarim, enquanto me preparava para não ser eu, me pus a perguntar: o que é que estou fazendo aqui ? Era um tiro no escuro, um encontro às cegas. Maquiar-se de outra pessoa é mexer com o imaginário de quem podemos ser, é a escolha de não ser completamente você, eu, nós.
Quando tocou o terceiro sinal do teatro foi que entendi porque a dúvida e a insegurança: eu não poderia ser previsível diante da arte. Eu tinha que me surpreender e surpreender. Na coxia, prestes a entrar foi que senti que já não era eu. Era Cecília, minha personagem de sabedoria sem tamanho e que dominou meu corpo como uma entidade e o palco com a grandeza de uma louca. Eu chorei com a ovação do público e senti o que é estar num palco. Mas ainda prefiro as letras, porque eu odeio ensaiar.
Eu gosto, mesmo, das estréias.
17 de maio de 2010
Única apresentação
10 de maio de 2010
Esquimó
3 de maio de 2010
A culpa

A culpa não berra feito os gritos de fúria, ela silencia pra castigar e esmagar você até gritar.
- DESCULPA, A CULPA FOI MINHA !
Ainda que não seja ou não haja culpados declarados o destino trata de bordar, ponto a ponto, os impulsos em ira da boca que fala demais.
19 de abril de 2010
Acampamento
14 de abril de 2010
Insista, de novo.
Um corpo é movido muito melhor a paixão. Fato. Meus estudos de vivência própria provam isso. (Não que isso valha muita coisa, MAS) E para quem tem medo de iniciar uma nova aventura ou se entregar ao risco, nem saia de casa. Medo de se machucar são para fracos, senão, amadores. A paixão serve pra isso mesmo: iludir, deixar a pele mais bonita, você mais animado e depois sofrer por mais um que não será o último, provavelmente, se você tiver sorte. Mas eu ando um pouco enjoada com essa história de paixão, porque o momento é outro, em que meu pensamento está só para o trabalho, dinheiro, teatro e letras. Mas apesar de não estar com o gostinho de paixão na boca, nunca custa nada ajudar a amiga insegura que está com medo de arriscar.
A minha quase bíblia é o livro Canalha, do Fabrício Carpinejar, que já citei aqui várias vezes e vai mais uma que, aliás, também já esteve neste post.
Se joga, povo.
"Declare-se apaixonado antecipadamente. Depois encontre um jeito de pagar. Ame por emprétimo. Ame devendo. Ame falindo. Mas não crie arrependimentos por aquilo que não foi feito. Sejamos mais reais em nossas dores. Tudo o que não aconteceu é perfeito. Dê chance para a imperfeição. Insista"
8 de abril de 2010
Um acaso no café da manhã
- Uma pergunta e um elogio.
- O problema não é quem repara mais ou menos, é reparar. Se é que você me entende.
Moço, por favor, você pode colocar o pão e o suco pra viagem, obrigada.
7 de abril de 2010
Causos do tempo
E com tanto passado, chamavam-na de saudosista quando não de medrosa, por não encarar o que lhe vinha à frente. Saudosista ou medrosa, Estela era mesmo ansiosa e impaciente para esperar o tempo.
- O futuro é pra quem o projeta.
Foi o que lhe disse um velho violeiro contador de causos, falador como ela. Aí então Estela compreendeu o tempo que vivera, que contava e que fazia. Quando percebeu que estava, de fato, apegada com o passado parou de datar o tempo, porque o velho lhe disse.
- Não importa que tempo foi, mas se foi.
30 de março de 2010
Eulírico desenhando uma dúvida

16 de março de 2010
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A coragem sempre foi para os excêntricos. No meu tempo de escola achava que coragem quem tinha, eram os fortes. Mas não. Músculos não definem idéias. Os fortes e de boa aparência não são nada além de comuns. Desejam ter um emprego de cargo público, uma família com pelo menos dois filhos e o carro do ano na garagem, e claro, a viagem de férias anual. Isso é a vida dos fortes, que suportam a monotonia da família tradicional e do emprego fixo. Os fortes não são corajosos, são inseguros demais para arriscar e ter coragem.
Coragem é para os homens que não têm medo do acaso, ou do que o destino lhe reserva.
*Trecho da peça que escrevi e a primeira fala da protagonista Cecília. Isso e além em cartaz em maio, no Teatro Brigadeiro.
11 de março de 2010
Super-Beta Campos
Entre todo o meu gosto e curiosidade pela música, principalmente brasileira, foi sempre ouvir e buscar novos compositores. Especificamente, para meu trabalho de pesquisa, novas compositoras. Foi então que em 2008 por acaso, ou por força do destino, ouvi Roberta Campos. Pouquíssimo tempo depois no conhecemos, fomos parceira em músicas, cantamos juntas, ela fez show no aniversário de dois anos deste humilde blog e, sempre muito gentil, também gravou algumas músicas minhas e pra mim.
Agora, quase dois anos depois desse encontro, respirei feliz pela Roberta que conheci e como ela está crescendo sem parar. Isso eu já sabia que cedo ou tarde ia acontecer, logo pela qualidade do trabalho que a mineira realizou quando era a cantora independente que gravou e produziu todo seu disco em casa, como explico neste post. Hoje, Beta tem contrato com a gravadora Deckdisk e já está fazendo seu nome, e mais: já ouvi jornalistas do meio fazendo bons comentários dessa moça de um talento só.
E toda essa recordação e vontade de escrever se deu no vídeo abaixo que é do making of de seu disco.
Entre todas as suas músicas a que tenho um carinho especial é Acabou, porque me lembro como se fosse hoje, quando estávamos em sua casa e Roberta, com violão e voz, claro, me mostrou a música e eu me emocionei.
Escuta e vê a moça aí.
6 de março de 2010
O som em comum
A gargalhada tem ritmo, harmonia, melodia e compasso, quando alguém a solta primeiro e em seguida vem outro amigo e outro e outro, seja fazendo base ou enriquecendo o som com os dentes a mostra, a sonoridade que faz ser tão contagiante quanto o samba e o jazz muda os olhares ranzinzas e as bocas amarradas pelo silêncio que estão em volta. Com o tempo cada grupo de pessoa cria quase que um único estilo de rir, de fazer o barulho da felicidade. Amigos se encontram pelo sorriso. E um sorriso, às vezes, pode ser até mais rápido que o choro. Mas não há pranto que resista um sorriso orquestrado por uma gargalhada ensaiada por amigos.
23 de fevereiro de 2010
As letras que não são minhas
10 de fevereiro de 2010
o escândalo da morte e a dor do amor
foto/fonte: le loveMas entre todas as coisas que as pessoas mais dizem é: não se humilhe! O que não é bem o que aconselha Roberto Freire em Ame e dê Vexame ou em Insista, crônica do livro Canalha!, do Carpinejar.
Eu amei, insisti, dei vexame e as pessoas diziam, “você tem que ter o mínimo de orgulho”. Também acho. Mas acredito mesmo que só se pode ter orgulho depois de um belo escândalo.
Por exemplo, nós fazemos escândalo diante da morte e sem vergonha que nos vejam chorar desconsolados abraçando o corpo que já não responde. Parece ridículo comparar a dor que se tem a perda da morte a de um relacionamento, já que não há consolo para a perda definitiva de alguém. Mas ridículo, talvez, seria também não comparar.
Já vi muita gente tentando descrever a dor da morte e não conseguir. Além de um vazio e as melhores lembranças do falecido não há mais nada que eu me lembre da morte. Até hoje sofri com a perda de dois bisavós, um avô e uma tia. Mas mesmo com a ausência dos quatro, tendo sentindo muito mais com a morte da minha tia, eu ainda não senti nada parecido com a dor da perda de um amor. Porque ao contrário da morte a separação não nos faz enterrar ninguém, a paixão sempre está mais viva para uma das partes e mesmo com a desintegração ele não deixa de existir, só muda o status ou a posição no tempo que de presente e futuro, de repente, se torna passado.
A morte não tem tempo, mas sempre tem companhia. Diante da morte você sempre tem companhia para chorar e recordar o melhor de quem não pode mais respirar. Do amor perdido, não. É você e só você para lembrar dos sorrisos trocados, do café da manhã surpresa, dos fins de semana todo na cama, das brigas por ciúme e do próximo aniversário que vocês não vão comemorar juntos.
A morte é o fim da esperança, o fim de um relacionamento é começo dela. Por pior ou melhor que tenha terminado sempre há esperança por parte do amor, senão pelo que se vai, pelo próximo que pode vir. Porque no fim das contas não dá pra superar o que não foi enterrado. Não se pode enterrar um sentimento ainda vivo, em qualquer coração que seja, ou que vier.
27 de janeiro de 2010
Uma pergunta nada comum
Depois de um ano de namoro com um intelectual e poetinha, dois anos de um caso fracassado com um egocêntrico acima do peso, uns quatro meses com um bonitão e mais uns freelas por aí, eu aprendi que a fila anda, mas a catraca tem que ser seletiva. Nem que pra isso a catraca não vire.
Minha família acha que eu sou encalhada, porque depois do meu primeiro namorado não apresentei mais nenhum, e isso se deve ao fato que não faço dos homens um troféu para desfilar com eles. E depois, como a catraca é seletiva, quem já foi a Paris não vai mais querer Freguesia do Ó. E com meu limite de exigência a coisa fica preta pro meu lado. Agora ando sutil, já cobrei mais. Antes, ser músico ou saber tocar algum instrumento era requisito indispensável. Uma bobagem, claro. Mas que dava um charme.
Mas mesmo sem virar a a catraca, colecionar histórias felizes e frustradas meu telefone toca com alguém muito desesperado do outro lado. Antes o desespero fosse de uma voz masculina, que assim juntaria a fome com a vontade de comer. Mas não, era uma voz de uma mulherzinha preocupada com suas relações e querendo esclarecer suas dúvidas comigo.
Minha ética não permite entregar a fonte mas antes de responder eu dei uma boa gargalhada e perguntei se ela estava louca. Ela simplesmente disse:
- Camila, me ensina a transar ? (tomara que meu pai não leia isso).
Isso é o tipo de pergunta assustadora, que se você está comendo engasga, se está dirigindo diminui a velocidade e se está apertado faz xixi nas calças de tanto rir.
A piada não vem só da pergunta, mas por quem e como é perguntada. Depois da minha surpresa cômica, vem a minha sutileza e pergunto o que exatamente ela tem dúvida. Porque não tem como eu ensinar uma mulher a transar, talvez dar algumas dicas, mas essas coisas a natureza age por si só. Na verdade só não, a dois de preferência.
E à princípio foi a dica que eu dei, fique com alguém que você tenha intimidade e manda bronca pra perder a vergonha. Use o instinto.
Minha leitora inexperiente teme ser frígida, porque segundo ela não sente nada na hora da penetração, mas se anima bastante com as preliminares. No raso da minha sabedoria tentei explicar que é IMPOSSÍVEL um pênis entrar nela e não sentir nada. Seja lá o que for. Dor, repudio, incomodo, prazer. Nunca ouvi nenhuma mulher dizer que não sentia nada. Você pode até sentir falta se a natureza não favoreceu seu parceiro, mas nada é muito pouco.
Mas nesse caso não basta fazer coro com Arnaldo Antunes na música, Socorro e cantar, “Socorro não estou sentindo nada...”. Depois, ou melhor, antes. Antes de sair com alguém que tenha intimidade para descobrir o que pode estar errado é se descobrir, se tocar e perceber onde se tem mais sensibilidade e, consequentemente, mais prazer.
Esse é o tipo de dica que todo mundo já escutou, mas eu reforcei porque ela é toda encanada. Mas a guria percebeu que quem poderá desencaná-la não sou eu e sim um amigo que ela foi pedir socorro e fez a mesma pergunta a ele que fez a mim.
Claro que ele topou. E eu desejo mesmo que ela consiga enfim desvendar o caminho de seu prazer. Mas eu tenho por mim, que não será difícil tarefa porque não há nada de complicado. É quase como andar de bicicleta ou dirigir, a prática só te faz melhor e mais seguro.
18 de janeiro de 2010
Saudade de verão
14 de janeiro de 2010
Meu sétimo pecado capital
Eu nunca vi ter tanta força, e de tão persistente que é às vezes parece do mal, mas também vez ou outra faz um bem. A danada já foi tema de música, já se meteu na literatura e também vive chegando perto de mim e me dizendo o que devo ou não fazer, e deixar o trabalho pesado para amanhã, claro. É a Preguiça, que feito Deus, ninguém nunca viu, mas a malandra faz a gente acreditar que está entre nós. Pelo menos está em mim.
Ela podia trabalhar seis dias e descansar no sétimo, como Deus que no último dia da semana também sentiu aquela preguicinha, aposto. E por coincidência ou não, é ela o sétimo pecado capital. Mas comigo eu tenho que lutar, brigar feio com a Preguiça que faz questão de me descansar seis dias da semana e trabalhar um. Bem diferente do Supremo. A Preguiça até parece má, assim, olhando desse ponto. Mas ela tem seu lado bom, porque a preguiça de sair de casa, por exemplo, me faz ver vários filmes no Telecine, assistir a quase todos os seriados da TV a cabo e no fim da tarde ainda pegar uma piscina, porque eu não gosto do sol forte, nem de criança gritando para atrapalhar minha leitura, tão pouco de arriscar perder o MP3 ou o ipood por uma guerra d’água. Além da incrível economia que se tem ficando em casa – principalmente quando se está de férias forçadas.
Com o meu jeito eu-resolvo-tudo-na-última-hora (e resolvo mesmo), a preguiça chega a me deixar confusa se sou assim porque sou brasileira, ou porque sou preguiçosa mesmo. Mas a preguiça tem lá a sua vantangem. Por exemplo, na minha primeira entrevista de emprego e também meu primeiro emprego, na revista da FGV, minha chefe perguntou:
- Qual o seu defeito ?
Primeiro, que eu acho que essa turma de chefia e RH lamentável, deviam ser mais originais, ninguém vai falar a verdade, exceto alguém tapada e sincera feito eu, que respondi:
- São muitos, mas o mais cruel mesmo é a preguiça
Sorri depois que disse a palavra p-r-e-g-u-i-ç-a. Sempre soa melhor o sorriso no final dela. A minha ex-chefe olhou pra mim assustada e repetiu o que eu tinha falado, quase desacreditando. Mas me contratou, acho que ela quis pagar pra ver.
Aí eu tive a certeza que não há porque eu odiar a preguiça, feito minha mãe que vive xingando a minha lassidão. Se não fosse a preguiça, somado a minha sinceridade, claro, sabe Deus quando e onde teria sido meu primeiro emprego, que abriu porta para outros e outros e outros.
Mas é fato, que a preguiça age como visita, quando sabe que você é ocupada e não tem tempo pra nada ela até bate e te tenta, mas devido às tarefas você resiste. Mas nas férias e enquanto estou desempregada, ela sabe que eu não estou fazendo nada e chega mesmo, não tem como não recebê-la
Mas se um dia eu tiver um filho, pra ele não sofrer tanto da preguiça a primeira música que vou ensiná-lo é Sai Preguiça, que em mim já é a doencinha de quem gosta da boa vida.
Mas, sai preguiça que eu preciso trabalhar !
7 de janeiro de 2010
Sô, sotaque e só
Mais do que as palavras, escritas, bem escritas, colocadas e perfeitamente acentuadas eu adoro o som das vogais arrastadas e das consoantes puxadas. Eu sou apaixonada pelo som e viciada no jeito com que as pessoas falam. O sotaque é a personalidade na afirmação da boca que derrama o som. Eu já me apaixonei por homens que só tinham sotaque e nada mais. E quando dizia que gostava era do sotaque dele, as pessoas me diziam estar louca, ninguém pode gostar de alguém só pelo sotaque. Hmm, mas o som tem sabor, sai com força da garganta e sinto aos poucos o som atravessar a boca e chegar a minha. Eu não preciso mais do que meia hora de prosa para já estar arrastando a pronúncia de qualquer canto que venha do país. Tenho minhas preferências, claro. Aquele sotaque sulista, cantandinho, arrastando, arrastando eu corto as cordas vocais de inveja. E tem aquele lento, devagar e todo charmoso do baiano e o mais charmoso e ligeiro do pernambucano. A malandragem do carioca e o R mais puxado do interior e o mineiro que vai comendim as palavras.
O sotaque é saudade que eu sinto dos dias de férias que passam e da convivência com os amigos de longe, que apesar do presente das palavras todas diferentes da minha rotina, dura pouco nessa boca. O tempo, como sempre, trata de deixar a deriva meu sotaque de mentira com saudade e a espera das próximas férias ou dos próximos encontros a preencher meu tique de sotaque, que só não muda no tom da risada.


