16 de julho de 2010

O gatão é meu cachorro

Sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce e pimba! Eu entro. Entro na caixa ou no metro quadrado que me põe em terra firme. Claro, o elevador, que quando não é uma caixinha de surpresa é o lugar mais desagradável, não pelo espaço, mas pelos riscos que se corre como cheirar o pum dos outros e o encontro com vizinhos chatos. Mas há os momentos bons, poucos, mas bons. Eu, por exemplo, só tive um desses momentos uma vez na vida, quando entrou um cara bonito, sorridente e simpático. Pensei: obrigada, Deus! Bom trabalho!
Naturalmente, nunca mais vi o bom sujeito. A gravidade não permite um encontro desses duas vezes.
Mas ontem, vindo da garagem encontro a vizinha do andar de cima, super simpática, barulhenta, mas bem humorada. Depois dos cumprimentos básicos de boa educação: boa noite, oi, tudo bem. Ela me pergunta:

Vizinha:
- E aquele gatão?

Eu:
- Bonito, né?

Vizinha:
- Ahh, uma delícia...

Eu:
- É, uma graça!

Vizinha
- É menino?

Eu
- Homem! homem!

Vizinha:
- Quantos anos ele tem?

Eu
- Não sei, ele mora aqui?

Vizinha
- Achei que morasse com você?

Eu:
- Comigo?

Vizinha:
- É, eu vi você passeando com ele

Na hora eu pensei: ela não deve estar pensando na mesma coisa que eu. O último homem com que passeei pelo meu bairro foi há três anos. Então eu saquei.


- Ah, o gatão é o meu cachorro?!


Abre a porta para o meu andar


Vizinha:
- É! Pensou em que? (rindo da minha cara)

Eu:
- Que fosse outro gatão....


Ela riu, eu ri, abri a porta de casa e meu gatão me esperava, abanando o rabo, pra passear. E fui, com o gatão que é um cachorro.

14 de julho de 2010

Um dia meu homem

Desejar quem passa na rua, olhar o rapaz do curso e flertar com os moços sorridentes sempre foi de bom grado. Mistério e bom humor costumam ser prato cheio da minha refeição. Mas querer você que eu nunca vi é estranho. Quase paranóico. Mas eu gosto de você.

Eu não sei teu cheiro, teu tato, como é seu cabelo, tão pouco o desenho da sua boca e mãos. Mas deve ser baixo e acho que não vou gostar da sua voz, mas eu gosto de você. O seu humor é inteligente, até elegante demais pro meu conhecimento medíocre sobre tudo ou qualquer coisa. Você deve ser sério, não gosto de homens muito sérios, mas gosto de você. Deve ter sotaque e personalidade forte. Engraçado que o sotaque que imagino vindo de você não combina com a sua voz. Você deve ser magro e ter as batatas das pernas bonitas, deve ter uma beleza estranha, apesar de talvez ter antebraços feios. Mas eu gosto de você. Deve tocar violão muito mal, cozinhar bem e ter amigos bonitos. Mas nenhum deve ser mais apaixonado e apaixonante do que você. Você tem nome de ex e sobrenome de futuro. Deve ser do signo de virgem e naturalmente muito organizado. Imagino isso por ler como você constitui as frases, sou viciada nas suas palavras. Qualquer coisa que escreva penso que é pra mim. Desejo que fosse pra mim. Escreve como eu gostaria de fazer.

Eu não te conheço, você não me conhece, mas sabemos um do outro. Eu te leio e sei que você me lê, ainda que nas entrelinhas, eu gosto de você.

27 de junho de 2010

Cheiro das manhãs

Não deixe de fazer porque estou olhando! Eu gosto de admirar. Gosto de apreciar os modos masculinos, são sempre mais cuidadosos, demorados e mais alegres. Acho interessante como passa a manteiga no pão com a mão esquerda e em seguida coloca o queijo. Há arte e atenção na construção do lanche matinal. Faz o seu e o meu como Niemayer desenha. Deve ser porque é canhoto e todo canhoto me parece mais atencioso. Gosto da sua concentração, mesmo quando não concentra em mim. Eu termino a maior das histórias e você diz, “oi?” e pede desculpa porque estava vendo os elementos e ingredientes da pasta de amendoim. Eu não repito a história, fico com preguiça, mas corro pro seu colo do outro lado da mesa a seu pedido e por minha vontade.

Gosto das suas explicações sobre a música e suas teorias sobre os cardumes, mas peço um delicado silêncio com um beijo sonolento toda vez que meu despertador nos acorda com Otis Redding e você prossegue com seu talento de professor em dizer o porquê da melodia. Eu só quero ficar um pouco mais na melodia da nossa respiração harmônica. Depois disso, eu venero seu respeito pelo silêncio. O meu, o seu e o da caixa de som.

Há em você um João Gilberto mais sorridente. Não se importa que eu cante enquanto trabalha, pede bis com suave beijo em minha nuca, que se arrepia enquanto lavo a louça, mas eu só paro de lavar para ver você se lavando. Eu gosto do seu desenho no Box, gosto da rapidez com que passa o xampu e conversa comigo ao notar minha presença. Gosto do cheiro infantil que exala na saída do banho e como homem sai com a vergonha, sem vergonha nenhuma. Faz a barba nú. Completamente nú. Não teme o frio, não teme a mim e para mim é a melhor parte: quando faz a barba. Eu disfarço andando de um quarto a outro até parar atrás de você. Eu não resisto. Um homem quando faz a barba mostra em si o que guarda ser.

Apesar de amar sua barba mal feita, me arrepia vendo fazê-lo. Fazer a barba é despir a vergonha da cara.
Não para! Não fala comigo! Concentra! Não erre, não se corte, eu posso sentir a dor. Eu te observo pra cuidar, pra te ter em todos os detalhes e ter a certeza que você não é só um rabisco meu. Não é mais um personagem que inventei. É o personagem que eu desejei e que atua inteiramente para mim.
Como eu tenho certeza ? Eu não tenho certeza. A única certeza é o fim e eu ainda estou vivendo o começo - do dia de hoje.

Mas acredito quando olha no meu olho e me pergunta afirmando se sou sua. Só sua. Então, eu também acredito que você pode ser só meu.

15 de junho de 2010

Vida à la carte


Os leitores das antigas e os amigos mais próximos sabem do meu afeto por gordinhos. Sempre considerei a classe, gostava de me relacionar com eles. A massa em excesso nunca foi um problema para mim, eu até me atraía pela gordurinha. Quando não questão de gosto, de oportunidade mesmo. Já falei sobre eles aqui, aqui e aqui, sem contar todas as citações por aí. Nesses quase três anos de blog eles ocuparam muito espaço no D’propósito. Mas ficou apertado e gordinhos não cabem mais; então mudei o estilo de vida e diria que estou, digamos, mais saudável. Troquei o gosto pela carne gorda por uma bem passada e magra. Mas claro que não foi uma mudança planejada eu conheci o prato e não é que gostei! Agora sou admiradora dos magros, até olho para eles na rua. Antes esses corpos de pouca carne nem tinham chance comigo, o fato é que como diria @tullavelho eu deixei o serviço sefl-service e passei a ser à la carte.

E bem, os gordinhos têm o seu charme, fato. Mas tem também suas limitações, que até agora não encontrei nenhuma com o esbelto que me acompanha.
Então eu percebo que não é só uma questão de genética, é a alimentação mesmo. Antes, quando saía com o moço acima do peso o prato era sempre algo gorduroso e bem engordativo, e eu que não tenho problema com gordura (amém) me esbaldava também. Mas a vida com o magro é diferente, até na madrugada.
Um belo dia, depois do show dele fomos comer e o rapaz pediu um sanduba vegetariano, que dividimos. Olha que vida saudável ! E isso vem desde o café da manhã, com integral e queijo branco.


O fato é que além de uma vida mais magra, agora eu levo uma mais saudável também. Inevitável e ainda bem, porque eu estou justamente na fase a caminho dos 25, qual a mulher se cuida e mantém ou fica a um passo de virar uma baranga.
Mas gordinhos, eu serei sempre uma defensora do carisma e graça de vocês, entretanto, a vida é sempre uma temporada. Pratos, carnes e histórias novas precisam ser escritas. Eu os defendo, mas vira e mexe surge o comentário, principalmente de familiares:

- Pelo menos esse é magro, finalmente.


É, finalmente eu consegui ver a delícia dos esbeltos.

12 de junho de 2010

O negócio é amar

O título não é meu, é de Dolores Duran, que tenho por mim como uma das maiores compositoras da música popular brasileira. Interpretes a gente tem um monte por aí, como ela também foi. Mas a compositora acabou se sobrepondo a cantora, ainda que divina nas duas funções. E escrever, compor, do jeito que ela sempre fez exige sapiência, conhecimento de causa.

O título e o dia são coincidências de uma letra magnífica que cabe para quem, no fundo, só deseja amar, estar apaixonado, envolvido emocionalmente.

Não há nenhuma versão dessa música com a voz de Dolores, porque só foi gravada anos após sua morte. A letra da canção foi encontrada no início da década de 80 pela amiga e cantora Marisa Gata Mansa. Na página além da letra tinha o nome, endereço e telefone do Carlinhos Lyra. O músico e produtor Hermínio Bello de Carvalho quando soube entrou em contato com Carlinhos, que não sabia da existência daquela letra, mas que em 40 minutos após a ligação fez a música, e então nasceu a parceria entre Carlinhos e Dolores, com apadrinhamento de Hermínio e Marisa.
E toda essa explicação só pra dizer que muitas versões foram gravadas com essa música mas, com a licença da pretensão, eu presenciei, sem dúvida alguma, a melhor versão desta canção. Presenciei e registrei, porque acho que seria muito pouco ou egoísmo da minha parte se eu deixasse gravado apenas pela minha retina e mente.

A letra, assim como foi escrita, é interpretada com sentimento, verdade e por quem entende quando o assunto é música. E isso é o que mais difere a música de ontem e a de hoje. Antes a música era feito com a alma, hoje é feita com o corpo.

Mas tudo isso não interessa, porque o negócio mesmo é amar !

Play.

9 de junho de 2010

Sutil conquista

Está na natureza: o macho é o caçador ! Mas numa natureza moderna, com homens se depilando e mulheres consertando chuveiro e matando barata a ordem se mistura, caça e caçador se confundem e a regra...bem, não existe mais regra.


Tenho três amigas que estão no momento “como vou cantar o cara?” Eu não sou a miss conquistadora, mas é fato: apesar da mulher vestir a fantasia de presa, ela não é presa nunca. É predadora. Um homem pensa que é caçador, a mulher faz de conta e deixa ele acreditar que sim. No fundo são as moças que escolhem, mas não chegam no título de caçadoras, são conquistadoras.


Mulheres são sutis, não saem caçando a carne. Saem conquistando corpos e idéias. Algumas fazem isso sem nem perceber, outras precisam pegar no tranco e algumas ainda têm a dificuldade de acreditar que a mulher pode cantar o bonitinho da esquina.


Demonstrar-se interessada, não te faz menos interessante. Tudo é uma questão de postura, de olhar, de conversa e até de sorrisos. A linha entre caçadora e conquistadora está como ser sensual e vulgar. A diferença é grande, mas tem gente que confunde.


Quando se conquista, você é sensual. Diz, mas não revela. Mostra, mas não se mostra. Fala, e deixa a dúvida. Não precisa vulgarizar querendo mostrar peito, bunda e risadas escandalosas para parecer engraçada. É claro que tudo é uma questão de estilo e objetivo.


Não é anormal a mulher sair à frente, dar o primeiro passo é permitir que o outro alguém dê os demais. Todo mundo gosta de conquistar e ser conquistado. Nada com pressa e às claras. Devagar, segurando a ansiedade e chegando na ponta dos pés a presa.


O jogo da conquista é, em muitas vezes, a melhor parte. A curiosidade e a expectativa são o que nos move pra frente e o que tem movimentado as conversas com minhas amigas. Entre elas está Gabrielle, do Engabizando. Uma conquistadora iniciante que diz que eu devia escrever um manual de conquista. Se eu fizer isso não fico com homem nenhum mais, acho. Eles vão fugir de mim, ou ficarem muito meus amigos.

E tudo é só experiência na observação humana. Mas eu como minhas amigas passei pela mesma dúvida de como chegar no rapaz e bem, quanto a mim, tudo o que eu fiz foi dizer antes dele:


- Oi, meu nome é Camila.


E a história começa aí...

26 de maio de 2010

Estréia

“Todo jornalista é o artista frustrado”Justificar


Nunca me esqueci da frase dita por uma professora no colegial ao saber da minha definitiva escolha pelo ofício.
Não sei bem dizer se é frustração, ou quando se confundiu com pretensão. Isso porque, sempre achei a arte e o palco pretensioso demais pra mim.
Eu sabia qual era o meu limite, pelo menos achava que sabia até semana passada, na minha estréia.

Escrever é (ou era) o suficiente para não me fazer uma pessoa frustrada. Mas aí, na falta do que fazer depois de graduada, fui estudar teatro pra ajudar na desenvoltura e dramaturgia para dar continuidade a qualquer imaginação. O fato é que de cara o curso de teatro possibilitou que eu colocasse a mão na massa, sendo co-autora do espetáculo que apresentamos.


Foi um prazer absoluto quando terminei de escrever, gozei de uma felicidade sem tamanho. Mas atuar já não me instigava tanto depois do árduo trabalho de dois dias seguidos pensando e sem parar de escrever. Mas era a norma, eu tinha que representar e apesar das adversidades encaradas na aula, fui me arriscar no tablado.

No camarim, enquanto me preparava para não ser eu, me pus a perguntar: o que é que estou fazendo aqui ? Era um tiro no escuro, um encontro às cegas. Maquiar-se de outra pessoa é mexer com o imaginário de quem podemos ser, é a escolha de não ser completamente você, eu, nós.


Quando tocou o terceiro sinal do teatro foi que entendi porque a dúvida e a insegurança: eu não poderia ser previsível diante da arte. Eu tinha que me surpreender e surpreender. Na coxia, prestes a entrar foi que senti que já não era eu. Era Cecília, minha personagem de sabedoria sem tamanho e que dominou meu corpo como uma entidade e o palco com a grandeza de uma louca. Eu chorei com a ovação do público e senti o que é estar num palco. Mas ainda prefiro as letras, porque eu odeio ensaiar.


Eu gosto, mesmo, das estréias.

17 de maio de 2010

Única apresentação

Deixei para última hora, eu sei. Mas ainda dá tempo. É amanhã, às 21h a peça Impasses da Consciência, no Teatro Brigadeiro.
Para os leitores que gostam do D'propósito eu aviso que tem texto meu e bem, participação minha também.
Se puder vá conferir minha brincadeira de dramaturga e atriz. Na Bilheteria diga que é meu convidado, a entrada é R$ 15.

Sorrisos largos e nos vemos lá, certo ?



10 de maio de 2010

Esquimó

Fiquei curiosa em descobrir qual é o nome.
E por três minutos quis que o nome fosse meu.
Depois, queria um nome pra desejar assim.
Agora, quero o livro.


3 de maio de 2010

A culpa



Dizer o que pensa tem sempre um preço. Dizer o que pensa quando se tem raiva é pagar a prazo uma culpa. Qualquer que seja ela. A Culpa é o arrependimento pesando no ombro, nas costas, na consciência. E qual o jeito de se livrar da presença constante desse sentimento que parece uma entidade que perturba ? É pedir desculpas ? É culpar o outro ? É reparar ? É não dizer nada ?
A culpa não berra feito os gritos de fúria, ela silencia pra castigar e esmagar você até gritar.


- DESCULPA, A CULPA FOI MINHA !


Ainda que não seja ou não haja culpados declarados o destino trata de bordar, ponto a ponto, os impulsos em ira da boca que fala demais.

19 de abril de 2010

Acampamento

foto: Carolina Helena*



Acampar a vida sobre sonhos
é ter mobilidade todos os dias
de uma nova visão
É ter o mundo a sua porta
E o sol na sua janela


*Carolina Helena: minha Cecília, da peça Impasses da

Consciência que estará em cartaz

no Teatro Brigadeiro, dia 18/05.

14 de abril de 2010

Insista, de novo.


Um corpo é movido muito melhor a paixão. Fato. Meus estudos de vivência própria provam isso. (Não que isso valha muita coisa, MAS) E para quem tem medo de iniciar uma nova aventura ou se entregar ao risco, nem saia de casa. Medo de se machucar são para fracos, senão, amadores. A paixão serve pra isso mesmo: iludir, deixar a pele mais bonita, você mais animado e depois sofrer por mais um que não será o último, provavelmente, se você tiver sorte. Mas eu ando um pouco enjoada com essa história de paixão, porque o momento é outro, em que meu pensamento está só para o trabalho, dinheiro, teatro e letras. Mas apesar de não estar com o gostinho de paixão na boca, nunca custa nada ajudar a amiga insegura que está com medo de arriscar.

A minha quase bíblia é o livro Canalha, do Fabrício Carpinejar, que já citei aqui várias vezes e vai mais uma que, aliás, também já esteve neste post.

Se joga, povo.

"Declare-se apaixonado antecipadamente. Depois encontre um jeito de pagar. Ame por emprétimo. Ame devendo. Ame falindo. Mas não crie arrependimentos por aquilo que não foi feito. Sejamos mais reais em nossas dores. Tudo o que não aconteceu é perfeito. Dê chance para a imperfeição. Insista
"

8 de abril de 2010

Um acaso no café da manhã

Acredito no destino, mas gosto mais quando parece acaso, acho que a situação em si tem mais potencial. Parece contraditório, eu sei. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, e eu posso acreditar nas duas.
Não por menos que tatuei acaso no corpo. Acredito na força do acaso tanto quanto ter um homem/marido mais-ou-menos-bonito, músico, escritor e jornalista. (Se a coisa do universo de conspirar faz sentido, basta eu acreditar e procurar bem). E aí uma hora as coisas acontecem ou se reencontram, no meu caso, o reencontro é na padaria que eu não frequento, mas estava lá por acaso, juro.



- Por favor, um suco de laranja e um pão na chapa.

O clássico e o de sempre. Em qualquer padoca e de manhã é o que peço, mas não notei que no mesmo balcão e algumas pessoas depois de mim, estava ele: o meu homem mais-ou-menos-bonito, músico, escritor e jornalista.



- Você não muda seu pedido nunca, Dayan ?

Depois da fala, ele deu um breve sorriso e apesar de ser o meu homem quase ideal ele é um #filhodaputa. E só pra esclarecer: não o via a meses, terminamos com briga declarada e achava que ele tinha raiva de mim. Bem, e quanto a mim, sou uma mulherzinha que está deixando de ser boba.


- Já ouviu falar que não se mexe em time que está ganhando ?!

- E o que tem a ver o pão e suco com isso ?

Ele gargalhou, eu queria rir também, não pela tirada da conversa, mas só pra rir com ele. Dizem que no café da manhã isso é bom. E pra não minhocar na resposta mudei de assunto.


- Emagreceu...?

- Uma pergunta ou um elogio ?

- Uma pergunta e um elogio.

- E ?

Senti que ele já estava puto aí, mas continuei com a petulância.


- Se você emagreceu é um elogio, senão, fica com o elogio também, essa blusa preta tá te deixando mais magro.

Alfinetar um gordinho complexado é mancada, eu sei. Mas eu arranquei o riso dos estranhos ao nosso lado.


- Eu emagreci.

- Foi o que imaginei.

- Você repara, né ?

- E você não ?

- Acho que menos que você.

- O problema não é quem repara mais ou menos, é reparar. Se é que você me entende.
Moço, por favor, você pode colocar o pão e o suco pra viagem, obrigada.


- Bom dia e bom café da manhã pra você.

- Obrigado, Dayan



Se foi destino, por enquanto, eu prefiro pensar que é acaso. Já que nada foi reparado.


7 de abril de 2010

Causos do tempo

Estela apreciava o gosto que tinha o passado. Contar o que não fazia mais parte de seu tempo era hobby da menina que andava com os pensamentos para trás. Guardava todas as datas, as cartas e as falas que não eram suas. O passado sempre lhe pareceu mais genuíno do que qualquer presente que chegasse como futuro. Mas Estela não percebia isso, não notava a distância no tempo.

E com tanto passado, chamavam-na de saudosista quando não de medrosa, por não encarar o que lhe vinha à frente. Saudosista ou medrosa, Estela era mesmo ansiosa e impaciente para esperar o tempo.


- O futuro é pra quem o projeta.


Foi o que lhe disse um velho violeiro contador de causos, falador como ela. Aí então Estela compreendeu o tempo que vivera, que contava e que fazia. Quando percebeu que estava, de fato, apegada com o passado parou de datar o tempo, porque o velho lhe disse.


- Não importa que tempo foi, mas se foi.

30 de março de 2010

Eulírico desenhando uma dúvida



- Eulírico, voltei !
- Puxa vida Camila, achei que tinha esquecido de mim. Já ouviu falar em consideração ?
- Já ! Mas considerando que eu não me esqueci de você não é falta de consideração. É falta de tempo, imaginação, sei lá...
- É bom ser lembrado.
- O engraçado é que, aqui, perto de você, é que eu noto quanta saudade eu estava
- Você precisa estar perto pra perceber que tem saudade ?
- Não necessariamente, longe eu também sinto. Mas é que quando a gente vê a saudade é que a gente sente mais ela.
- Mas eu não sou a saudade.
- Eu sei que não, mas eu estava com saudade de você Eulírico e, logo, a saudade estava com você, entendeu ?
- Não sei...
- Então esqueça a saudade...
- Ah, preciso dizer! Aliás, perguntar.
- Ih, eu sou melhor perguntando do que você, Eulírico.
- Quer perguntar então ?
- Não, não tenho nenhuma dúvida. É você quem quer...
- Então deixa eu fazer minha questão
- Certo, manda o X da questão
- Talvez não o X, mas a dúvida Camila é saber se você desenhou sua vida como ela hoje ?
- Bem...
- Difícil, né ?
- Não. O desenho é mais difícil que a pergunta.
- E o que você desenhou ?
- Na verdade eu rabisquei, o destino deu a forma e o acaso tratou de pintar
- E isso é bom ?
- Não sei, o desenho não acabou.
- E quando é que acaba ?
- Quando eu parar de desenhar com a riqueza dos traços e borrar, sem querer, com a mesma mão que desenho.
- Me mostra depois ?
- Pra você faço até exposição.

16 de março de 2010

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A coragem sempre foi para os excêntricos. No meu tempo de escola achava que coragem quem tinha, eram os fortes. Mas não. Músculos não definem idéias. Os fortes e de boa aparência não são nada além de comuns. Desejam ter um emprego de cargo público, uma família com pelo menos dois filhos e o carro do ano na garagem, e claro, a viagem de férias anual. Isso é a vida dos fortes, que suportam a monotonia da família tradicional e do emprego fixo. Os fortes não são corajosos, são inseguros demais para arriscar e ter coragem.
Coragem é para os homens que não têm medo do acaso, ou do que o destino lhe reserva.

*Trecho da peça que escrevi e a primeira fala da protagonista Cecília. Isso e além em cartaz em maio, no Teatro Brigadeiro.

11 de março de 2010

Super-Beta Campos

Entre todo o meu gosto e curiosidade pela música, principalmente brasileira, foi sempre ouvir e buscar novos compositores. Especificamente, para meu trabalho de pesquisa, novas compositoras. Foi então que em 2008 por acaso, ou por força do destino, ouvi Roberta Campos. Pouquíssimo tempo depois no conhecemos, fomos parceira em músicas, cantamos juntas, ela fez show no aniversário de dois anos deste humilde blog e, sempre muito gentil, também gravou algumas músicas minhas e pra mim.

Agora, quase dois anos depois desse encontro, respirei feliz pela Roberta que conheci e como ela está crescendo sem parar. Isso eu já sabia que cedo ou tarde ia acontecer, logo pela qualidade do trabalho que a mineira realizou quando era a cantora independente que gravou e produziu todo seu disco em casa, como explico neste post. Hoje, Beta tem contrato com a gravadora Deckdisk e já está fazendo seu nome, e mais: já ouvi jornalistas do meio fazendo bons comentários dessa moça de um talento só.
E toda essa recordação e vontade de escrever se deu no vídeo abaixo que é do making of de seu disco.
Entre todas as suas músicas a que tenho um carinho especial é Acabou, porque me lembro como se fosse hoje, quando estávamos em sua casa e Roberta, com violão e voz, claro, me mostrou a música e eu me emocionei.
Escuta e vê a moça aí.

6 de março de 2010

O som em comum

A gargalhada tem ritmo, harmonia, melodia e compasso, quando alguém a solta primeiro e em seguida vem outro amigo e outro e outro, seja fazendo base ou enriquecendo o som com os dentes a mostra, a sonoridade que faz ser tão contagiante quanto o samba e o jazz muda os olhares ranzinzas e as bocas amarradas pelo silêncio que estão em volta. Com o tempo cada grupo de pessoa cria quase que um único estilo de rir, de fazer o barulho da felicidade. Amigos se encontram pelo sorriso. E um sorriso, às vezes, pode ser até mais rápido que o choro. Mas não há pranto que resista um sorriso orquestrado por uma gargalhada ensaiada por amigos.


23 de fevereiro de 2010

As letras que não são minhas

Eu sinto uma ponta de culpa de ficar tanto tempo ausente daqui. E acho justo que se não paro e penso para escrever, dividir as páginas que leio é o mínimo para preencher o espaço vazio e branco.

"Parece que tudo está fechado e protegido por uma redoma de vidro finíssimo e o calor torna os movimentos ainda mais pesados; mas não há calma dentro de mim. É como se um rato estivesse roendo a minha alma, e de uma maneira tão imperceptível que até parece suave. Não estou mal e também não estou bem, a coisa preocupante é que "não estou". Mas sei me reencontrar: basta levantar os olhos e cruzá-los com o olhar refletido no espelho para que uma calma e uma felicidade tranquila tomem conta de mim.[...] A única coisa que realmente me faz ficar bem é aquela imagem que contemplo e amo:todo resto é ficção".

100 escovadas antes de ir para a cama, de Melissa Panarello.

10 de fevereiro de 2010

o escândalo da morte e a dor do amor

foto/fonte: le love

O ônibus é, no fim das contas, mais reflexivo que um metrô. Talvez porque demore mais. E foi a caminho do trabalho que pensei que há sempre alguém sofrendo por amor. Se não é você, é um amigo, ou quem não se gosta mais. E por trás da dor do amor há sempre alguém aconselhando o que fazer. Como esquecer, como reagir, o que falar, como se comportar, feito esses livros ambulantes de auto-ajuda.

Mas entre todas as coisas que as pessoas mais dizem é: não se humilhe! O que não é bem o que aconselha Roberto Freire em Ame e dê Vexame ou em Insista, crônica do livro Canalha!, do Carpinejar.

Eu amei, insisti, dei vexame e as pessoas diziam, “você tem que ter o mínimo de orgulho”. Também acho. Mas acredito mesmo que só se pode ter orgulho depois de um belo escândalo.
Por exemplo, nós fazemos escândalo diante da morte e sem vergonha que nos vejam chorar desconsolados abraçando o corpo que já não responde. Parece ridículo comparar a dor que se tem a perda da morte a de um relacionamento, já que não há consolo para a perda definitiva de alguém. Mas ridículo, talvez, seria também não comparar.


Já vi muita gente tentando descrever a dor da morte e não conseguir. Além de um vazio e as melhores lembranças do falecido não há mais nada que eu me lembre da morte. Até hoje sofri com a perda de dois bisavós, um avô e uma tia. Mas mesmo com a ausência dos quatro, tendo sentindo muito mais com a morte da minha tia, eu ainda não senti nada parecido com a dor da perda de um amor. Porque ao contrário da morte a separação não nos faz enterrar ninguém, a paixão sempre está mais viva para uma das partes e mesmo com a desintegração ele não deixa de existir, só muda o status ou a posição no tempo que de presente e futuro, de repente, se torna passado.

A morte não tem tempo, mas sempre tem companhia. Diante da morte você sempre tem companhia para chorar e recordar o melhor de quem não pode mais respirar. Do amor perdido, não. É você e só você para lembrar dos sorrisos trocados, do café da manhã surpresa, dos fins de semana todo na cama, das brigas por ciúme e do próximo aniversário que vocês não vão comemorar juntos.

A morte é o fim da esperança, o fim de um relacionamento é começo dela. Por pior ou melhor que tenha terminado sempre há esperança por parte do amor, senão pelo que se vai, pelo próximo que pode vir. Porque no fim das contas não dá pra superar o que não foi enterrado. Não se pode enterrar um sentimento ainda vivo, em qualquer coração que seja, ou que vier.

27 de janeiro de 2010

Uma pergunta nada comum

Com este blog eu já recebi várias dúvidas, algumas chegam por email, MSN, Orkut e para os mais íntimos por telefone. Grande parte das perguntas sobre relacionamentos – como se eu fosse a bem resolvida, mas acho que o fato de não ser e acabar desfrutando ou desfrutada da vida, faz as pessoas acharem que, bem, eu sou a fada madrinha da vida afetiva.

Depois de um ano de namoro com um intelectual e poetinha, dois anos de um caso fracassado com um egocêntrico acima do peso, uns quatro meses com um bonitão e mais uns freelas por aí, eu aprendi que a fila anda, mas a catraca tem que ser seletiva. Nem que pra isso a catraca não vire.

Minha família acha que eu sou encalhada, porque depois do meu primeiro namorado não apresentei mais nenhum, e isso se deve ao fato que não faço dos homens um troféu para desfilar com eles. E depois, como a catraca é seletiva, quem já foi a Paris não vai mais querer Freguesia do Ó. E com meu limite de exigência a coisa fica preta pro meu lado. Agora ando sutil, já cobrei mais. Antes, ser músico ou saber tocar algum instrumento era requisito indispensável. Uma bobagem, claro. Mas que dava um charme.

Mas mesmo sem virar a a catraca, colecionar histórias felizes e frustradas meu telefone toca com alguém muito desesperado do outro lado. Antes o desespero fosse de uma voz masculina, que assim juntaria a fome com a vontade de comer. Mas não, era uma voz de uma mulherzinha preocupada com suas relações e querendo esclarecer suas dúvidas comigo.

Minha ética não permite entregar a fonte mas antes de responder eu dei uma boa gargalhada e perguntei se ela estava louca. Ela simplesmente disse:

- Camila, me ensina a transar ? (tomara que meu pai não leia isso).

Isso é o tipo de pergunta assustadora, que se você está comendo engasga, se está dirigindo diminui a velocidade e se está apertado faz xixi nas calças de tanto rir.
A piada não vem só da pergunta, mas por quem e como é perguntada. Depois da minha surpresa cômica, vem a minha sutileza e pergunto o que exatamente ela tem dúvida. Porque não tem como eu ensinar uma mulher a transar, talvez dar algumas dicas, mas essas coisas a natureza age por si só. Na verdade só não, a dois de preferência.

E à princípio foi a dica que eu dei, fique com alguém que você tenha intimidade e manda bronca pra perder a vergonha. Use o instinto.

Minha leitora inexperiente teme ser frígida, porque segundo ela não sente nada na hora da penetração, mas se anima bastante com as preliminares. No raso da minha sabedoria tentei explicar que é IMPOSSÍVEL um pênis entrar nela e não sentir nada. Seja lá o que for. Dor, repudio, incomodo, prazer. Nunca ouvi nenhuma mulher dizer que não sentia nada. Você pode até sentir falta se a natureza não favoreceu seu parceiro, mas nada é muito pouco.

Mas nesse caso não basta fazer coro com Arnaldo Antunes na música, Socorro e cantar, “Socorro não estou sentindo nada...”. Depois, ou melhor, antes. Antes de sair com alguém que tenha intimidade para descobrir o que pode estar errado é se descobrir, se tocar e perceber onde se tem mais sensibilidade e, consequentemente, mais prazer.
Esse é o tipo de dica que todo mundo já escutou, mas eu reforcei porque ela é toda encanada. Mas a guria percebeu que quem poderá desencaná-la não sou eu e sim um amigo que ela foi pedir socorro e fez a mesma pergunta a ele que fez a mim.

Claro que ele topou. E eu desejo mesmo que ela consiga enfim desvendar o caminho de seu prazer. Mas eu tenho por mim, que não será difícil tarefa porque não há nada de complicado. É quase como andar de bicicleta ou dirigir, a prática só te faz melhor e mais seguro.

18 de janeiro de 2010

Saudade de verão


foto: camila dayan


A saudade de você em mim é feito chuva de verão. É rápido, mas é forte. O meu céu que sempre está azul de repente escurece com a falta que eu lembro ter de você.

14 de janeiro de 2010

Meu sétimo pecado capital

Eu nunca vi ter tanta força, e de tão persistente que é às vezes parece do mal, mas também vez ou outra faz um bem. A danada já foi tema de música, já se meteu na literatura e também vive chegando perto de mim e me dizendo o que devo ou não fazer, e deixar o trabalho pesado para amanhã, claro. É a Preguiça, que feito Deus, ninguém nunca viu, mas a malandra faz a gente acreditar que está entre nós. Pelo menos está em mim.

Ela podia trabalhar seis dias e descansar no sétimo, como Deus que no último dia da semana também sentiu aquela preguicinha, aposto. E por coincidência ou não, é ela o sétimo pecado capital. Mas comigo eu tenho que lutar, brigar feio com a Preguiça que faz questão de me descansar seis dias da semana e trabalhar um. Bem diferente do Supremo. A Preguiça até parece má, assim, olhando desse ponto. Mas ela tem seu lado bom, porque a preguiça de sair de casa, por exemplo, me faz ver vários filmes no Telecine, assistir a quase todos os seriados da TV a cabo e no fim da tarde ainda pegar uma piscina, porque eu não gosto do sol forte, nem de criança gritando para atrapalhar minha leitura, tão pouco de arriscar perder o MP3 ou o ipood por uma guerra d’água. Além da incrível economia que se tem ficando em casa – principalmente quando se está de férias forçadas.

Com o meu jeito eu-resolvo-tudo-na-última-hora (e resolvo mesmo), a preguiça chega a me deixar confusa se sou assim porque sou brasileira, ou porque sou preguiçosa mesmo. Mas a preguiça tem lá a sua vantangem. Por exemplo, na minha primeira entrevista de emprego e também meu primeiro emprego, na revista da FGV, minha chefe perguntou:

- Qual o seu defeito ?

Primeiro, que eu acho que essa turma de chefia e RH lamentável, deviam ser mais originais, ninguém vai falar a verdade, exceto alguém tapada e sincera feito eu, que respondi:

- São muitos, mas o mais cruel mesmo é a preguiça

Sorri depois que disse a palavra p-r-e-g-u-i-ç-a. Sempre soa melhor o sorriso no final dela. A minha ex-chefe olhou pra mim assustada e repetiu o que eu tinha falado, quase desacreditando. Mas me contratou, acho que ela quis pagar pra ver.

Aí eu tive a certeza que não há porque eu odiar a preguiça, feito minha mãe que vive xingando a minha lassidão. Se não fosse a preguiça, somado a minha sinceridade, claro, sabe Deus quando e onde teria sido meu primeiro emprego, que abriu porta para outros e outros e outros.
Mas é fato, que a preguiça age como visita, quando sabe que você é ocupada e não tem tempo pra nada ela até bate e te tenta, mas devido às tarefas você resiste. Mas nas férias e enquanto estou desempregada, ela sabe que eu não estou fazendo nada e chega mesmo, não tem como não recebê-la


Mas se um dia eu tiver um filho, pra ele não sofrer tanto da preguiça a primeira música que vou ensiná-lo é Sai Preguiça, que em mim já é a doencinha de quem gosta da boa vida.

Mas, sai preguiça que eu preciso trabalhar !




7 de janeiro de 2010

Sô, sotaque e só

Mais do que as palavras, escritas, bem escritas, colocadas e perfeitamente acentuadas eu adoro o som das vogais arrastadas e das consoantes puxadas. Eu sou apaixonada pelo som e viciada no jeito com que as pessoas falam. O sotaque é a personalidade na afirmação da boca que derrama o som. Eu já me apaixonei por homens que só tinham sotaque e nada mais. E quando dizia que gostava era do sotaque dele, as pessoas me diziam estar louca, ninguém pode gostar de alguém só pelo sotaque. Hmm, mas o som tem sabor, sai com força da garganta e sinto aos poucos o som atravessar a boca e chegar a minha. Eu não preciso mais do que meia hora de prosa para já estar arrastando a pronúncia de qualquer canto que venha do país. Tenho minhas preferências, claro. Aquele sotaque sulista, cantandinho, arrastando, arrastando eu corto as cordas vocais de inveja. E tem aquele lento, devagar e todo charmoso do baiano e o mais charmoso e ligeiro do pernambucano. A malandragem do carioca e o R mais puxado do interior e o mineiro que vai comendim as palavras.

O sotaque é saudade que eu sinto dos dias de férias que passam e da convivência com os amigos de longe, que apesar do presente das palavras todas diferentes da minha rotina, dura pouco nessa boca. O tempo, como sempre, trata de deixar a deriva meu sotaque de mentira com saudade e a espera das próximas férias ou dos próximos encontros a preencher meu tique de sotaque, que só não muda no tom da risada.