D'propósito

18 de maio de 2011

Deleite


Tem dias que Estela é o homem de sua vida. Sim, ela mesma. Abre a porta, paga a conta, toma vinho, vai ao teatro, cinema, parque, show, casamento, festa de criança, faz amor. Quase sempre sozinha.

Estela era seu homem, sua companhia. Excelente companhia, inteligente, pele fresca, olhos de gato, corpo sempre desenhado a meia luz. Mas Estela continuava sozinha. Recebia galanteios de uma parte e de outra. Mas era exigente. Foi mulher de poucos homens, não de corpo, de coração. De corpo, quando a ausência não resistia ao tempo, ela revisitava o passado, a lista seleta dos poucos e bons. Mas de coração Estela foi de dois ou três. Dois! Eu, autora, prefiro os pares. Deve ter sido dois. Os outros números não são o suficiente para lhe fazer mulher, ou o homem da sua vida, tão pouco companhias para abrir a porta, tomar vinho, ir ao teatro, cinema, parque, show, casamento, festa de criança, fazer amor.

Poucos compreendiam que Estela era sua melhor companhia e que aquilo, de flanar sozinha não era solidão, nem sassaricagem da mulher que vai a caça. Estela não era a mulher rica-sucedida-independente. Não. Só que Estela se criou no homem da sua vida, na ausência de outro. Aprendeu que sair aos domingos, jantar e pegar cinema sozinha não é solidão, é estado de quem se aceita ser o amor da sua vida.

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