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31 de maio de 2011

Cheiro do passado

Passado, mantenha à distância! Foi o que Estela pensou quando as noites de sono perderam sua paz e as manhãs pediam o gosto do café amargo dele. Ela gostava da idéia do que viveram juntos, desejou e aceitou começar de novo até perceber que a história deles nunca havia terminado, tampouco começado. Foi o que ele justificou sobre o que acontecera quando ela, ainda apaixonada, decidiu ir embora e ele permitiu sem fazer escândalo ou esforço pra não deixar. Ele justificou sobre o passado com a mesma naturalidade que troca de canal sem pedir licença e passa lentamente a margarina no pão.

A história não existiu. O passado tinha sido corriqueiro, só mais uma relação talvez, concluiu Estela, que um dia acreditou e viveu pelos dois, quando ele, provavelmente, simulou a importância do que não foi. Estela que nunca foi de implorar amor e talvez só fosse uma grande contadora de história da própria vida, terminou o café, lavou a louça e disse:

- Eu ia continuar o que nunca houve. Obrigada por me usar e avisar.

E foi embora, sem bater as portas e sem voltar atrás, mesmo com o pedido dele pra ficar, pra esperar.

E foi no caminho pro futuro que Estela descobriu que o pior não é ser usada, mas saber que foi mais insignificante do que imaginou.


18 de maio de 2011

Deleite


Tem dias que Estela é o homem de sua vida. Sim, ela mesma. Abre a porta, paga a conta, toma vinho, vai ao teatro, cinema, parque, show, casamento, festa de criança, faz amor. Quase sempre sozinha.

Estela era seu homem, sua companhia. Excelente companhia, inteligente, pele fresca, olhos de gato, corpo sempre desenhado a meia luz. Mas Estela continuava sozinha. Recebia galanteios de uma parte e de outra. Mas era exigente. Foi mulher de poucos homens, não de corpo, de coração. De corpo, quando a ausência não resistia ao tempo, ela revisitava o passado, a lista seleta dos poucos e bons. Mas de coração Estela foi de dois ou três. Dois! Eu, autora, prefiro os pares. Deve ter sido dois. Os outros números não são o suficiente para lhe fazer mulher, ou o homem da sua vida, tão pouco companhias para abrir a porta, tomar vinho, ir ao teatro, cinema, parque, show, casamento, festa de criança, fazer amor.

Poucos compreendiam que Estela era sua melhor companhia e que aquilo, de flanar sozinha não era solidão, nem sassaricagem da mulher que vai a caça. Estela não era a mulher rica-sucedida-independente. Não. Só que Estela se criou no homem da sua vida, na ausência de outro. Aprendeu que sair aos domingos, jantar e pegar cinema sozinha não é solidão, é estado de quem se aceita ser o amor da sua vida.

7 de abril de 2010

Causos do tempo

Estela apreciava o gosto que tinha o passado. Contar o que não fazia mais parte de seu tempo era hobby da menina que andava com os pensamentos para trás. Guardava todas as datas, as cartas e as falas que não eram suas. O passado sempre lhe pareceu mais genuíno do que qualquer presente que chegasse como futuro. Mas Estela não percebia isso, não notava a distância no tempo.

E com tanto passado, chamavam-na de saudosista quando não de medrosa, por não encarar o que lhe vinha à frente. Saudosista ou medrosa, Estela era mesmo ansiosa e impaciente para esperar o tempo.


- O futuro é pra quem o projeta.


Foi o que lhe disse um velho violeiro contador de causos, falador como ela. Aí então Estela compreendeu o tempo que vivera, que contava e que fazia. Quando percebeu que estava, de fato, apegada com o passado parou de datar o tempo, porque o velho lhe disse.


- Não importa que tempo foi, mas se foi.

17 de agosto de 2009

Auto-estrada


Estela sabia que os passos estavam errados e o caminho era incerto. Mas na estrada pouco pavimentada que já caminhara ela conhecia as pedras e os buracos. Já havia estourado os pneus e se machucado tentando trocá-los. Desistiu da maior invenção do homem. Deixou as rodas largadas no meio da estrada e o carro parado com os vidros abertos e as portas destravadas.

Continuou, caminhou, pediu carona, se perdeu e acabou no mesmo lugar. Ao invés de seguir em frente Estela andou em círculo, feito a roda que largara no meio do caminho. Mas agora os pneus não estavam mais jogados na estrada, estavam devidamente colocados no automóvel que a esperava para guiá-lo. Tudo estava lá, do mesmo jeito; o toca fitas, o mapa, o macaco, o violão e sua cruel desilusão.

A nostalgia foi aparente, sentou-se no banco do motorista, encostou a cabeça no volante e pensou durante horas na música que o rádio reservava entre Noel, Cartola e Geraldo Pereira. Quando o silêncio dominou, ela levantou a cabeça e ligou o motor, que roncava alto feito a cuíca no samba. A gasolina estava pelo fim e os pára-brisas quebrados. Por um minuto pensou em desistir e voltar atrás, pegar o caminho de retorno. Mas Estela não quis ser fraca e voltar sem boas histórias para contar. Decidiu prosseguir, mesmo sabendo que podia se machucar e sofrer de novo as mesmas moléstias do difícil caminho.

Ela sentia o frio do arrependimento chegando a qualquer momento, como o vento que desgrenhava seus cabelos, no entanto, Estela achava que seguir em frente era a melhor escolha. Porque a estrada era a escola que ela precisava aprender a ser. Ser livre e só de viver, ainda que com o risco do pesar de tudo o que viria depois. Porque fora isso, ou além disso, haveria no mínimo histórias a serem contadas. E Era isso que Estela buscava: histórias e nada mais.

9 de fevereiro de 2009

Subterfúgio .

Estela está a mais de um mês fugindo de um encontro que uma hora será inevitável. Fugir pode ser uma solução, o difícil é fingir na hora do encontro. Ainda que com tantos desencontros, uma hora, o encontro surge. Acontece. E nessa hora é que Estela vê onde a coragem está guardada. Nos olhos, nas mãos, na boca, no pulmão. Ou em parte alguma. Aí então, Estela vai perceber se fugir valeu a pena e notar se ficar é um risco. Um risco qualquer pro coração. Uma ousadia qualquer do passado que se escreve no tempo, agora.

5 de novembro de 2008

Mesa de jantar

Havia algumas semanas que Estela não via Mauro, resolveu parar de contar os dias de ausência quando a folha do calendário virou o mês. Nesse meio tempo, impaciente, provocou encontros ocasionais, arriscou discar os números do telefone dele, mas tudo foi infeliz. Os encontros tornaram-se desencontros, o telefone deu ocupado e sem desculpas ou argumentos para procurá-lo, depois da última discussão, resolveu esquecê-lo. Mas também foi infeliz. Repensou e descobriu que ela sempre viveu para contar histórias e de preferência as de finais felizes. Impulsionada pelo momento e o sentimento de saudade de Mauro, resolveu criar um pretexto para buscar, ou trazer, o homem que lhe aspirava à paixão. Assim, passou numa loja de móveis e comprou uma sala de jantar, Estela poderia tê-lo convidado pra jantar, almoçar, mas para ela, não haveria desculpa ou motivo que disfarçaria seu desejo, senão, talvez, mostrar a sala e o prato espanhol que tinha aprendido na ultima viagem.

Com prazo de entrega exigido por ela, em 24 horas a mesa estava em sua sala de jantar. Depois de horas ensaiando o convite pegou o telefone e com o bom motivo ligou para o Mauro.
Chamou, chamou, chamou, chamou e secretária eletrônica. Depois do sinal, veio a respiração dela de decepção e o recado.

- Mauro, é Estela. Eu achei esse número na minha agenda, e não sabia de quem era. Reconheci agora, quando ouvi tua voz no recado da secretária. E então Como vai você? Eu vou bem e ... eu comprei uma sala de jantar nova, se quiser me ligar ou passar aqui pra gente estrear ou comer uma pizza, ou beber alguma coisa, pode ser legal. Bem, é, é... acho que é isso. Um abraço.

Depois do recado, Estela percebeu que o ensaio pro convite não valeu nada, e teve vontade de quebrar o telefone e ir até a casa dele apagar a mensagem desesperada que deixou. Mas pra quem vivia pra contar histórias, ela já podia contar mais uma - para os seus amigos -, na sala de jantar.

7 de outubro de 2008

Tempo da estação

As pessoas vêm e vão e como trem sem hora marcada, embarcam, desembarcam, correm contra o tempo e buscam satisfação. Estela conta os minutos e atrasa o relógio para uma doce ou qualquer ilusão. Espera, caminha e nada. Então, recorda o passado, imagina o futuro e na constante mudança dos passos que conduzem sua estação, retêm na memória as coisas que ama, que não se perde, nem se esquece jamais. Como os sorrisos, os grandes abraços, as discussões tão úteis, as longas conversas sobre a vida e qualquer coisa do dia-a-dia.
Sem pedir licença, os lugares se modificam, a vida se transforma, o trem muda a direção e Estela, cansada de esperar, embarca junto com o futuro. Mas ainda, vive marcada pelo último adeus daqueles que vêm para ficar e se despedem.

01/09/06

23 de junho de 2008

Quimera

Há muito tempo Estela não sonhava com ele, não sonhava com outro, não sonhava com nada e ninguém. O sono das noites era escuro, feito o azul onde as estrelas se destacam.

Em uma noite de lua cheia Estela surpreendeu-se; depois de meses sem ver cores e imagens durante o sono, sonhou novamente com o que sonhara acordada todos os dias: ele. O rapaz dos sonhos aparecera durante a noite, carregado de chocolates e palavras que só o seu sotaque seria capaz de convencê-la. Mas ela não ouvia o sotaque, o sonho era mudo, feito o cinema de Charles Chaplin.

Ele pedia para ficar com Estela, e ela como quem não ouve, fingiu não entender seu pedido. Deixou para os sonhos. Quando acordou, Rita Lee tocava no rádio Amor e Sexo, a música que definia bem as escolhas na sua vida de novela e os seus sonhos de cinema.


30 de abril de 2008

A caminho do desconhecido


Estela vivia para contar histórias. Viveu contos, amores e mentiras. Depois disso, jurou nunca mais se apaixonar, mas não cumpriu. Ela sempre foi uma garota de palavra, mas seu coração era poliglota e ela não. Só falava o português e um pouco do tupi que Policarpo Quaresma tanto defendeu e ela acreditava também.

E sabendo apenas duas línguas não entendia seu coração e não cumpriu sua palavra quanto à paixão. Ela se apaixonou de novo, não loucamente, mas insana o suficiente a ponto de largar todas as suas histórias para viver uma história: se dedicar as fábulas de Mauro.

Ela pensou em estar louca, mas lembrou que sua vida não passara de momentos insanos e felizes, até fugazes. Decidiu. Pagou as dividas, devolveu os livros emprestados, largou o curso de artes, o emprego, a família, os amigos e foi para o Rio de Janeiro viver com Mauro. Na mala só as roupas, uns poucos trocados e o papagaio Plaft que trazia em mãos dentro da gaiola.

Ela resolveu tudo em dois dias. Não se sabe porquê, mas a vida de Estela sempre foi decidida pelo número dois, por dias pares e dias de sol. Ao menos era assim sua vida com Mauro. E definiu tudo em 48 horas, não precisou de mais. Não queria festa, nem despedida, porque ainda que com amor e a convite de Mauro, ela sabia que um dia voltaria para contar as histórias ou qualquer vestígios delas, pois Estela nunca se recusara a viver. Nunca.

16 de abril de 2008

Auto-estrada


Estela sabia que os passos estavam errados e o caminho era incerto. Mas na estrada pouco pavimentada que já caminhara, ela conhecia as pedras e os buracos. Já havia estourado os pneus e se machucado tentando trocá-los. Desistiu da maior invenção do homem. Deixou as rodas largadas no meio da estrada e o carro parado com os vidros abertos e as portas destravadas.

Continuou, caminhou, pediu carona, se perdeu e acabou no mesmo lugar. Ao invés de seguir em frente ela andou em círculo, feito a roda que largara no meio do caminho. Mas agora os pneus não estavam mais jogados na estrada, estavam devidamente colocados no automóvel que a esperava para guiá-lo. Tudo estava lá, do mesmo jeito; o toca fitas, o mapa, o macaco, o violão e sua cruel desilusão.

A nostalgia foi aparente, sentou-se no banco do motorista, encostou a cabeça no volante e pensou durante horas na música que o rádio reservava entre Noel, Cartola e Geraldo Pereira. Quando o silêncio dominou, ela levantou a cabeça e ligou o motor, que roncava alto feito a cuíca no samba. A gasolina estava pelo fim e os pára-brisas quebrados. Por um minuto pensou em desistir e voltar atrás, pegar o caminho de retorno. Mas Estela não quis ser fraca e voltar sem boas histórias para contar. Decidiu prosseguir, mesmo sabendo que podia se machucar e sofrer de novo as mesmas moléstias do difícil caminho.


Ela sentia o frio do arrependimento chegando a qualquer momento, como o vento que desgrenhava seus cabelos, no entanto, Estela achava a melhor escolha, porque a estrada era a escola que ela precisava aprender a ser. Ser livre e só de viver, ainda que com o risco do pesar de tudo o que viria depois. Porque fora isso ou, além disso, haveria no mínimo histórias a serem contadas. E Era isso que Estela buscava: histórias e nada mais.