31 de maio de 2011
Cheiro do passado
18 de maio de 2011
Deleite
7 de abril de 2010
Causos do tempo
E com tanto passado, chamavam-na de saudosista quando não de medrosa, por não encarar o que lhe vinha à frente. Saudosista ou medrosa, Estela era mesmo ansiosa e impaciente para esperar o tempo.
- O futuro é pra quem o projeta.
Foi o que lhe disse um velho violeiro contador de causos, falador como ela. Aí então Estela compreendeu o tempo que vivera, que contava e que fazia. Quando percebeu que estava, de fato, apegada com o passado parou de datar o tempo, porque o velho lhe disse.
- Não importa que tempo foi, mas se foi.
17 de agosto de 2009
Auto-estrada
Estela sabia que os passos estavam errados e o caminho era incerto. Mas na estrada pouco pavimentada que já caminhara ela conhecia as pedras e os buracos. Já havia estourado os pneus e se machucado tentando trocá-los. Desistiu da maior invenção do homem. Deixou as rodas largadas no meio da estrada e o carro parado com os vidros abertos e as portas destravadas.
Continuou, caminhou, pediu carona, se perdeu e acabou no mesmo lugar. Ao invés de seguir em frente Estela andou em círculo, feito a roda que largara no meio do caminho. Mas agora os pneus não estavam mais jogados na estrada, estavam devidamente colocados no automóvel que a esperava para guiá-lo. Tudo estava lá, do mesmo jeito; o toca fitas, o mapa, o macaco, o violão e sua cruel desilusão.
A nostalgia foi aparente, sentou-se no banco do motorista, encostou a cabeça no volante e pensou durante horas na música que o rádio reservava entre Noel, Cartola e Geraldo Pereira. Quando o silêncio dominou, ela levantou a cabeça e ligou o motor, que roncava alto feito a cuíca no samba. A gasolina estava pelo fim e os pára-brisas quebrados. Por um minuto pensou em desistir e voltar atrás, pegar o caminho de retorno. Mas Estela não quis ser fraca e voltar sem boas histórias para contar. Decidiu prosseguir, mesmo sabendo que podia se machucar e sofrer de novo as mesmas moléstias do difícil caminho.
Ela sentia o frio do arrependimento chegando a qualquer momento, como o vento que desgrenhava seus cabelos, no entanto, Estela achava que seguir em frente era a melhor escolha. Porque a estrada era a escola que ela precisava aprender a ser. Ser livre e só de viver, ainda que com o risco do pesar de tudo o que viria depois. Porque fora isso, ou além disso, haveria no mínimo histórias a serem contadas. E Era isso que Estela buscava: histórias e nada mais.
9 de fevereiro de 2009
Subterfúgio .
5 de novembro de 2008
Mesa de jantar
Com prazo de entrega exigido por ela, em 24 horas a mesa estava em sua sala de jantar. Depois de horas ensaiando o convite pegou o telefone e com o bom motivo ligou para o Mauro.
Chamou, chamou, chamou, chamou e secretária eletrônica. Depois do sinal, veio a respiração dela de decepção e o recado.
- Mauro, é Estela. Eu achei esse número na minha agenda, e não sabia de quem era. Reconheci agora, quando ouvi tua voz no recado da secretária. E então Como vai você? Eu vou bem e ... eu comprei uma sala de jantar nova, se quiser me ligar ou passar aqui pra gente estrear ou comer uma pizza, ou beber alguma coisa, pode ser legal. Bem, é, é... acho que é isso. Um abraço.
Depois do recado, Estela percebeu que o ensaio pro convite não valeu nada, e teve vontade de quebrar o telefone e ir até a casa dele apagar a mensagem desesperada que deixou. Mas pra quem vivia pra contar histórias, ela já podia contar mais uma - para os seus amigos -, na sala de jantar.
7 de outubro de 2008
Tempo da estação
As pessoas vêm e vão e como trem sem hora marcada, embarcam, desembarcam, correm contra o tempo e buscam satisfação. Estela conta os minutos e atrasa o relógio para uma doce ou qualquer ilusão. Espera, caminha e nada. Então, recorda o passado, imagina o futuro e na constante mudança dos passos que conduzem sua estação, retêm na memória as coisas que ama, que não se perde, nem se esquece jamais. Como os sorrisos, os grandes abraços, as discussões tão úteis, as longas conversas sobre a vida e qualquer coisa do dia-a-dia.
Sem pedir licença, os lugares se modificam, a vida se transforma, o trem muda a direção e Estela, cansada de esperar, embarca junto com o futuro. Mas ainda, vive marcada pelo último adeus daqueles que vêm para ficar e se despedem.
01/09/06
23 de junho de 2008
Quimera
Em uma noite de lua cheia Estela surpreendeu-se; depois de meses sem ver cores e imagens durante o sono, sonhou novamente com o que sonhara acordada todos os dias: ele. O rapaz dos sonhos aparecera durante a noite, carregado de chocolates e palavras que só o seu sotaque seria capaz de convencê-la. Mas ela não ouvia o sotaque, o sonho era mudo, feito o cinema de Charles Chaplin.
Ele pedia para ficar com Estela, e ela como quem não ouve, fingiu não entender seu pedido. Deixou para os sonhos. Quando acordou, Rita Lee tocava no rádio Amor e Sexo, a música que definia bem as escolhas na sua vida de novela e os seus sonhos de cinema.
30 de abril de 2008
A caminho do desconhecido

E sabendo apenas duas línguas não entendia seu coração e não cumpriu sua palavra quanto à paixão. Ela se apaixonou de novo, não loucamente, mas insana o suficiente a ponto de largar todas as suas histórias para viver uma história: se dedicar as fábulas de Mauro.
Ela pensou em estar louca, mas lembrou que sua vida não passara de momentos insanos e felizes, até fugazes. Decidiu. Pagou as dividas, devolveu os livros emprestados, largou o curso de artes, o emprego, a família, os amigos e foi para o Rio de Janeiro viver com Mauro. Na mala só as roupas, uns poucos trocados e o papagaio Plaft que trazia em mãos dentro da gaiola.
Ela resolveu tudo em dois dias. Não se sabe porquê, mas a vida de Estela sempre foi decidida pelo número dois, por dias pares e dias de sol. Ao menos era assim sua vida com Mauro. E definiu tudo em 48 horas, não precisou de mais. Não queria festa, nem despedida, porque ainda que com amor e a convite de Mauro, ela sabia que um dia voltaria para contar as histórias ou qualquer vestígios delas, pois Estela nunca se recusara a viver. Nunca.
16 de abril de 2008
Auto-estrada

Continuou, caminhou, pediu carona, se perdeu e acabou no mesmo lugar. Ao invés de seguir em frente ela andou em círculo, feito a roda que largara no meio do caminho. Mas agora os pneus não estavam mais jogados na estrada, estavam devidamente colocados no automóvel que a esperava para guiá-lo. Tudo estava lá, do mesmo jeito; o toca fitas, o mapa, o macaco, o violão e sua cruel desilusão.
A nostalgia foi aparente, sentou-se no banco do motorista, encostou a cabeça no volante e pensou durante horas na música que o rádio reservava entre Noel, Cartola e Geraldo Pereira. Quando o silêncio dominou, ela levantou a cabeça e ligou o motor, que roncava alto feito a cuíca no samba. A gasolina estava pelo fim e os pára-brisas quebrados. Por um minuto pensou em desistir e voltar atrás, pegar o caminho de retorno. Mas Estela não quis ser fraca e voltar sem boas histórias para contar. Decidiu prosseguir, mesmo sabendo que podia se machucar e sofrer de novo as mesmas moléstias do difícil caminho.


