D'propósito

8 de agosto de 2008

A vida como ela é

Na porta do apartamento 111 ela aperta a campainha. Com uma pulsação que é possível notar no tremule de suas pernas, ela traz em mãos “A vida como ela é” livro e DVD com os contos de Nelson Rodrigues; ainda envolvida pelas histórias rodriguianas lidas e assistidas ela espera, e Ele, abre a porta. Os olhares se cruzam como se fosse inesperado. Como se o porteiro não tivesse avisado a chegada dela e Ela tivesse aparecido de surpresa. Mas, principalmente, para Ela cada encontro era uma surpresa. Qualquer rancor, intriga e desavenças ocorridas até ali, de repente desapareceram.


Isso porque, ele vendo-a parada em pé na porta sem nada dizer e com uma mão na cintura e a outra com seus objetos, percebeu que ele era o culpado de tudo aquilo. Dos contos tristes que Rodrigues que não cedeu final feliz. E como uma novela que cada fim é um novo começo, Ele a puxou pela cintura e deu um beijo como o primeiro. Aquele que nem ele e nem ela haviam esquecidos, porque ele ensinou que tudo iria passar, exceto o momento que aliciava o beijo de todo o começo.


Com a mesma intensidade do primeiro encontro, do primeiro telefonema e do primeiro livro emprestado, Ele a envolveu com seu corpo e arrastou para dentro de seu apartamento de pouca luz. Iluminado apenas pelos abajures que seduziam ainda mais Ele e o seu sabor.
Passando pela sala e o primeiro quarto, chegaram ao quarto que de presente mostrava a cidade perdida dentro da metrópole. Todo o trajeto até o dormitório e a sacada, foram incandescentes de beijos e afagos.


Diferente de todo casal que cairiam na cama para se amar, eles acabaram na varanda, por onde tudo começou e onde a brisa que passa de pressa refresca o fogo solta de uma paixão mal acabada. Era isso. Uma paixão mal acabada.
Ela não foi até lá para apaixonar-se de novo, foi pra lhe entregar os pertences que eram dele. Um romance rodriguiano, e uma despedida em grande estilo.


Nada foi dito entre os intervalos do beijo e o toque no corpo que vibrava como violão e cantava uma canção que Ela cantarolava num ritmo e Ele em outra. A desarmonia aconteceu quando Ela se afastou e recusou-o. Ele nunca soube levar não, ficava irritado com a negação. Então, insistiu. Ela resistiu. E numa persistência dos dois Ele percebeu que Ela não era mais um pertence dele. Ela era noiva agora. Não notou pela sua aliança, soube pela boca que o recusou.
Houve um diálogo longo entre eles e inconformado Ele indagou.


- Por quê você vai fazer isso?

Com um minuto de silencio e desespero por parte dela respondeu.

- Porque ele me lembra a minha primeira paixão.

Foi o fim do reencontro banhado pela pouca luz do luar e da cidade que iluminava um apartamento perdido na urbanização e no tempo de quando havia paixão.

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